A exatidão da análise na Bolsa de Valores

Por Jose Gaspar em 25 de abril de 2017 às

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Precisão numérica é uma quimera cobiçada por todas as áreas do conhecimento, mas só alcançada plenamente pela matemática. No reino da rainha das ciências a soma 2 + 2 é precisamente 4. Nem um pouquinho mais, nem um bocadinho menos. É 4 cravado. No entanto, esse é o único campo de estudo onde isso acontece.

Na física, por exemplo, 2 + 2 pode ser igual a 3,9998. Ou quem sabe 4,0002. Mas dificilmente será igual a 4. Isso porque, na física, uma ciência natural, o número 2 se refere necessariamente a algo concreto, uma medida empírica que foi realizada a partir de algum componente da natureza e, enquanto grandeza mensurável, não podemos ter absoluta certeza de seu valor “real”. Não existe exatidão na natureza. Ou se existe, nunca saberemos que há, pois nossos métodos de medição sempre vão conter algum montante de erro.

Esta foi uma das primeiras aulas que tivemos na faculdade de física. O professor fez questão de deixar claro que, apesar de tratada como ciência exata durante o ensino médio, a física está longe de ser uma ciência exata. Assim sendo, uma das primeiras disciplinas do curso de física é justamente a Teoria de Erros, que visa capacitar os alunos a lidar com a imprecisão nas medidas e cálculos que farão ao longo do curso. A única ciência verdadeiramente exata é a matemática.

Ainda na física, se chegarmos na mecânica quântica, uma área que trata do comportamento das partículas subatômicas, a precisão cai completamente por terra. Tanto que ela propõe que a falta de precisão verificada nas medidas seria uma característica inerente do universo e não um erro gerado pela ineficiência de nossos instrumentos de medição.

Pois bem, se nas ciências naturais há uma margem de erro, nas ciências humanas essa margem é ainda maior. Isso acontece porque a quantidade de variáveis nos sistemas humanos é gigantesca. Muito maior do que numa medida de comprimento ou massa, por exemplo. Quando tratamos do humano e sua caixa de emoções e subjetividades estamos diante do imponderável.

A economia, enquanto ciência humana, possui essa acentuada característica de imprecisão. Apesar de lidar com números, cálculos e equações, no que diz respeito à exatidão, ela é muito mais amiga da antropologia, filosofia e sociologia do que da matemática. Da mesma forma, a análise dos preços, tanto técnica quanto fundamentalista, possui esse significativo grau de imprecisão.

Especificamente na análise técnica, com a qual usamos um suporte algébrico para calcular indicadores, prognósticos de movimento do preço, etc., utilizamos muito mais a estatística para tomar as decisões de compra e venda, que é justamente a parte da matemática utilizada para tratar da imprecisão, da aleatoriedade e da incerteza. Ao analisar o movimento dos preços acabamos, às vezes de uma maneira indireta, sendo obrigados a lidar com psicologia, sociologia e política. Áreas do conhecimento que fogem completamente da exatidão.

Assim, no mercado, 2 + 2 pode ser igual a 4, mas pode também ser igual a 20.438,10. No sentido que mesmo após uma vasta e profunda análise das variáveis relacionadas aos preços de um ativo, ainda assim, a conclusão de que eles vão subir até certo nível ou descer até um suporte está fadada a não se mostrar verdadeira. Pode acontecer exatamente o oposto.

Como lidar com a imprecisão então? Que fazer já que não podemos prever o futuro do movimento dos preços?

Assim como um trader, um surfista não consegue prever exatamente como a onda vai se movimentar, subir ou rebentar. Apesar do movimento das ondas ser um sistema natural é um sistema complexo, pois apresenta muitas variáveis que influenciam o fenômeno: o vento, a gravidade da Terra, o movimento da Lua, a viscosidade da água, o relevo do terreno no fundo do mar, etc. Ainda assim, o surfista consegue surfar as ondas, mesmo sem conseguir integrar todos os dados e fazer uma análise precisa.

Um trader nada mais é do que um surfista das ondas do mercado. Mas a abordagem que vai usar não pode ser inteiramente matemática. Cálculos numéricos feitos com os preços, ou seja, os indicadores, são apenas um dos muitos elementos que ele vai usar na análise, mas não são os mais importantes.

Dessa forma, operar na bolsa de valores é encarar o imponderável. É navegar em alto mar preparado e decidido a enfrentar e superar tempestades. Como Ulisses, nos lançamos ao mar sabendo que seremos tentados por sereias e atacados por Titãs. Enfrentamos o risco, nos adaptamos a cada mudança nos ventos, ajustamos as velas e prosseguimos com a certeza de que atravessaremos o oceano e chegaremos ao outro lado vitoriosos.

Contudo, apesar de lidarmos diariamente com o imprevisível, não submetemos nosso sucesso à sorte. Não somos jogadores de cassino. Em nosso barco não temos bola de cristal nem exatidão matemática, temos método, disciplina e auto conhecimento. Sabemos quando as emoções batem à nossa porta e não nos furtamos em lidar com elas.

Através do método e da disciplina obtemos um viés favorável ao nosso barco que, se seguido com consistência, nos permite atravessar o oceano. Assim, é justamente a probabilidade, que não possibilita que façamos previsões com exatidão, a nossa principal aliada nessa jornada.

Utilizar um método consistente e eficaz é como jogar um dado de 6 faces, sendo que venceremos sempre que der 1, 2, 3 e 4. Quando as chances estão a nosso favor, é nesse momento que içamos as velas e nos lançamos ao mar.

Fiquem ligados no Facebook da L&S e na série de vídeos Como Ganhar Dinheiro na Bolsa de Valores.

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